Discurso Directo.

"O céu agora está completamente escuro, a luz do sol morreu e nem tenho a lua para o espelhar. Afinal, içar âncora deste sonho não é partir para construir outra realidade, é apenas regressar"

~Pai

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Hoje

Hoje é o meu aniversário, e em que é que estou eu a pensar? Naquilo que me faz parar todos os dias. Os medicamentos. Os que tomo para sobreviver. Porque não existe cura para isto. Mas não durmo, não quero comer, e o que me impede de voltar a magoar-me são estes estúpidos medicamentos que me dizem "Não sejas estúpida, ainda cá estás", mas será que é isso que eu quero? Depender em medicação para o resto da minha vida?
Mais uma noite sem conseguir dormir e dou por mim a pesquisar sobre isto, aparentemente existem vários tipos e eu nem sei em qual deles me enquadro. Ontem pensei em momentos em que era mais nova que agora consigo explicar como sintomas. Mas porquê?
Porque é que eu tenho que ser assim? Tenho medo de me esquecer. Tenho medo de ter outro ataque. Tenho medo de sair de casa. Tenho medo de estar na escola. Apesar de os medicamentos supostamente ajudarem-me a enquadrar-me melhor numa vida social. Tenho medo. Fecho os olhos à noite e vejo-me a ter um ataque, a ser levada para o hospital, a morrer, depois fica tudo negro e eu pergunto-me "porquê?", e acordo. A chorar. Porque vejo a minha mãe e o meu irmão que foram comigo para o hospital a gritar "Adriana! Não feches os olhos! Por favor!" e o meu irmão segura a minha mão com lágrimas a correrem-lhe pela face e ele diz baixinho "Por favor mana, não vás. Por favor". Os meus olhos fecham-se e acordo.

Eu tento

Eu tento tanto, tanto. Porque é que nunca consigo ser quem eu quero ser?
Porque é que tenho que ser esta rapariga que não consegue dormir por causa dos pesadelos?
Porque é que sou rotulada como "mentirosa", quando para mim mentir é pior crime que matar?
Porque é tenho que cair no chão e ter um ataque para acreditarem em mim?
Porquê?

Pelo amor de uma filha.

Adorava deixar-te ir, mas não consigo, mas por favor, meu pai, pousa essa garrafa e olha-me nos olhos.

Onze aninhos, com uma mão entre ti e minha mãe, a gritar para prometeres, promessas que nunca cumpriste. Mas quem sou eu, senão uma filha que deitou tudo a perder por ti, pelas mentiras que tecias nas nossas costas.

A família nunca acreditou em nada, eu era a filha de ouro, perfeita. Porquê?
Agora apenas sou uma rapariga que foi forçada a crescer demasiado depressa, uma rapariga quebrada. Eu tento, tento, mas nunca mudarás, nem pelo amor de uma filha.

Já te esqueceste que sou a tua filhinha, como é que pudeste apagar-me assim da tua vida, o teu próprio sangue.

Já sangrei muito por ti, já me magoei demasiado. Não quero voltar a fazê-lo. O meu pulso direito já tem demasiadas cicatrizes. O meu coração já tem demasiadas nódoas negras.
Agora que já acreditam em mim e em como estou doente, em como não estou a mentir, já se preocupam.

Tenho que que admitir, não podes recuperar uma relação que nunca existiu, eu não posso ser manipulada mais vezes, antes até que os teu "amo-te" não soem reais.
Sinto-me sempre de parte quando estou nesse sitio ao qual chamas "casa".

O problema aqui é que eu não consigo deixar-te ir, eu tento lutar mas não vale a pena, nunca vale a pena.

Tão nova quando a dor começou, agora para sempre com medo de ser amada e de amar.
Meu pai.
Por favor meu pai.

Pelo amor de uma filha.