Discurso Directo.

"O céu agora está completamente escuro, a luz do sol morreu e nem tenho a lua para o espelhar. Afinal, içar âncora deste sonho não é partir para construir outra realidade, é apenas regressar"

~Pai

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Foge

Ao acordar com a luz da manhã na minha face, vejo que o dia de ontem não passou de um sonho.
Hoje é ontem, quando hoje devia ser amanhã.
Choveu ontem o dia todo, hoje não.
O calor do teu ser estava dentro no meu coração, ontem.
Prometeste-me deixar encostar-me no teu ombro amanhã.
Hoje não é esse amanhã.
Hoje é um amanhã em que não te murmuro palavras de amor.
Hoje não é o ontem do meu sonho de ontem.
As noites continuam a passar, e os dias a fugir-me por entre os dedos finos de pianista.
No fim do sonho penso "E se isto fosse um sonho?"
Depois acordo.
Não para a realidade, mas para o pesadelo do qual eu tentava fugir.
Não quero acordar, quero fugir de todos.
Quero fugir.

2009

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sorrir

Penso agora em todos aqueles momentos em que me escondi da luz.
Penso em todos os momentos em que fiquei fechada, sozinha em casa, no meu quarto, na minha cama.
E não chorava, não podia ser fraca, tinha a minha família para proteger.
Tinha que ser maior que eu, para ser maior que dor que vocês sentiam.
E maior que a dor me me fazia sofrer a mim.

Penso naqueles momentos em que me perguntavam "Estás bem?", "Porque é que não vieste ontem?".
Odeio esses momentos.

Toda a ajuda que me ofereciam, eu não a queria.
Só pensava "Tenho que ser forte, vocês só me têm a mim".
Um dia vi o meu irmão sorrir outra vez, com aquela alegria de criança que ele tem.
Um dia vi a minha mãe feliz outra vez, a falar, a rir-se, e não a chorar.
Mas continuei a protege-los, e a ser forte para eles.
Penso eu.


Comecei a perceber que eu é que precisava de chorar no ombro de alguém, que eu é que precisava de ser protegida.
E então chorei.
Sozinha, mas chorei.

Comecei a tentar proteger-me do mundo todo, a criar uma barreira entre mim e todos.
Comecei a ficar doente, não fisicamente, mas por dentro.
Já não chorava.

A dor já era tanta que eu já não chorava.

Até um dia, uma certa discussão com uma pessoa que é forte de verdade, ter libertado todos os meus problemas ao mundo, e todas as lágrimas para as nuvens.
Então aí comecei, finalmente, a pedir, não, a gritar por ajuda.

E então comecei a escrever.
Os desenhos eram e sempre serão o meu verdadeiro refúgio, mas as letras deixam-me imaginar histórias que fazem sentido na minha cabeça, que me deixam ser eu própria sem ter medo.


Agora sorrio de novo de verdade, não apenas para esconder a tristeza.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

(2)

Porquê? Porquê? PORQUÊ?

És mais para nós do que possas pensar...
Foste quem nos tirou da escuridão, e nos manteve à tona.
Deixaste-nos chorar no teu ombro, quando todos nos pediam que fossemos fortes.
Nunca merecemos um ser tão bondoso como tu.
Sempre nos protegeste, quando devíamos ter sido nós a proteger-te de todos os perigos.
Criaste uma barreira em volta do teu inocente ser, nós notámos.
Choravas em segredo, quando achavas que não estávamos a ver.
Afastamos-nos de ti, pois tínhamos medo que te magoasses para nos proteger.

Choramos por ti.
Mantinhas-nos ligados.
Sem o nosso céu, não somos nada.
...
Volta.
Grita connosco.
Chora nos nossos braços.
Volta a sorrir para nós.

domingo, 17 de outubro de 2010

(1)

Ás vezes ponho-me a pensar: Será isto mesmo necessário?
Mas porque é que me questiono, é que eu não sei.
Para vos proteger, para te proteger a ti.
Para vos fazer felizes, para não te fazer chorar.
Porque eu apenas mato, não sei já dizer que não consigo.
Vocês já não me vêem como aquele que permanece inocente neste mundo em que reina a crueldade.
Apenas tu me vês chorar, após todas as mortes.
Apenas tu me consolas, pois tenho que ser forte.
Avanço, então, em direcção ao encontro mortal, talvez.
...
Perdoem-me.
Perdoem-me por tudo.