Discurso Directo.

"O céu agora está completamente escuro, a luz do sol morreu e nem tenho a lua para o espelhar. Afinal, içar âncora deste sonho não é partir para construir outra realidade, é apenas regressar"

~Pai

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

1827

Olhei-o.

E soube...
Ele estava ali. Ele apenas estava ali, à minha frente com aquele sorriso inocente.
O seu sorriso detestável.

Eu vi o seu sorriso.

Sempre soube que este encontro era uma armadilha. Ele também sabia, no entanto queria provar que estava errado. O seu odor permanecia no seu quarto. Como se ele nunca tivesse ido, o cheiro a lavanda - o cheiro de mil flores. Como se ele estivesse no prado campestre, em vez de nas cidades em chamas e esgotos.

Inspirei o seu odor.

Não foi ainda nesta manhã que tu te riste com todos aqueles a que chamas família? Não foi à apenas 3 horas atrás que te riste da minha postura? Não foi à apenas 30 minutos, que te riste da piada daquele filho da mãe? Não foi à apenas 60 segundos, que sorriste para mim enquanto fechaste os teu olhos, para nunca mais acordar?

Ouvi o seu riso.

Não me abraçaste perto de ti quando eu ameacei deixar a tua família? Não tocaste na minha face enquanto eu dizia o quão perigosa era a situação? Não sentiste o bater do meu coração quando eu chorei a noite passada para te pedir para reconsiderares? Não te agarraste ao meu braço quando ele ameaçou destruir a tua família? Não me agarraste quando eu fui atrás dele quando foste baleado? Não ficaste frio, quando a tua chama te deixou enquanto disseste as tuas últimas palavras, gastaste a última gota do teu oxigénio?

Senti o seu toque.

Lembras-te do nosso primeiro beijo? Estavas com outra pessoa na altura. O nome dela era o mesmo que o do Sol, não era? Não que me interesse, mas mesmo assim, ela foi facilmente substituída quando disse que não te amava mais. O nosso primeiro beijo foi quando ainda estavas com ela. O nosso segundo foi um dia depois dela te ter deixado ir. Até agora, ainda sabes ao mesmo. Sabes a morangos... a menta... com um toque de amargo.

No entanto, sempre foi um sabor viciante. Nunca era o suficiente. Sabias a calor. O nosso último beijo foi igual. Mesmo com a quando a tua chama diminuiu e o teu brilho começou a perder a luz, ainda sabias ao mesmo. No entanto eu sabia que seria o nosso último.

Senti os seus lábios.

Foste a razão porque eu lutava. Tu eras-me tudo! Sem ti aqui, mas vale eu ir-me. No entanto, o teu último desejo não me deixou.

Oh como eu sei que me adoras atormentar. Prometeste-me que voltavas. Prometeste-me que continuarias quente. Então porquê...?

Então porque é que me deixaste?
Então porque é que o teu brilho está a desaparecer?

Querias assim tanto deixar-me? Abandonaste-nos de verdade? A mim? Ainda esta manhã te vi, a sorrir gentilmente para nós, mim? Estavas a respirar o teu odor florido, a rir o teu riso melódico, senti o teu abraço agressivo, provei o teu delicioso beijo... então soube.

Tu nunca mais voltarias.

Eu sabia... Tive um palpite. Enquanto deixaste o nosso quarto, eu vi-te e senti-te enquanto saiste por aquelas portas.

E então foste-te.
"O céu finalmente deixou a terra quebrada."


1 comentário:

  1. Gostava que "isto" fosse um esboço para um texto/obra mais comprida/elaborada.

    Vale a pena!

    ResponderEliminar