Discurso Directo.

"O céu agora está completamente escuro, a luz do sol morreu e nem tenho a lua para o espelhar. Afinal, içar âncora deste sonho não é partir para construir outra realidade, é apenas regressar"

~Pai

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Memórias de uma túlipa


Chuva.
Ela não podia deixar de gostar da chuva.
Mesmo que as nuvens estejam escuras e iminentes, e que o ar esteja gelado, e isso lhe dê um ar muito solitário, ela continua a gostar da chuva.
Ela olhava as gotas que brincavam no vidro da janela com aqueles inocentes olhos azuis que ficaram pálidos com o passar do tempo.
Os mesmos olhos que um dia viram o tempo parar.

"Da próxima vez que estiver contigo, irei tirar as pilhas do meu relógio... Para o tempo parar."
Ela estremece ao ouvir algo tão piroso.
"Pois..."
Ele sorri avidamente.
"Estou a falar a sério."
"No entanto estás a sorrir."
"Mas a sério, quero viver o resto da minha vida contigo."
Um sorriso cria-se nos seus lábios.
"..."

"...Isso é bom."

Na sua mesa de cabeceira, está a fotografia do seu casamento.
Ele conseguiu fazer com que ela assinasse um contrato, onde ela prometesse viver a sua vida com ele até que a morte os separasse.

Mas o que é que aconteceu?

Olhando agora para os sorrisos nas suas caras, ela pergunta-se sobre o que aconteceu a todas as promessas de viverem juntos para o resto das suas vidas.
Essas promessas estão vazias agora.
Essas promessas são vagas, irreais...

Ele mentiu, não foi?

A lado da moldura, existe um grande vaso com flores murchas.
Tulipas. As flores que ela supostamente adora.
Pétalas mortas estão espalhadas pela mesa de cabeceira, imensas pétalas.
Essas pétalas... houve uma altura em que elas significaram muito para ela, mas agora não significam nada.
Essas tulipas estão agora murchas, sem vida.

Olhar para elas agora faz doer os meus olhos.

"Outra túlipa?! Em que é que estás a pensar, dando-me uma todos os dias?"
Ele sorri alegremente.
"Gostas delas, não gostas?"
Ela desvia o olhar, um bocadinho corada.
"Não me lembro de alguma vez ter dito algo assim."
"Hmm, mas não negas não gostar delas."

Ela volta a observar a chuva, grata que o céu se sinta da maneira que se sente.
Que se sinta da maneira que ela se sente.
É apropriado, que o mundo deprima com ela.
Ela não quer ser a única que se sente só, fria e miserável.
O mundo entende, de certeza, o porquê de ela perder o seu tempo junto à janela sozinha no seu quarto.
Mas... talvez ela esteja melhor...

Morta...
...?

O seus pensamentos deprimentes são interrompidos de repente.
Os seus, outrora pálidos, olhos azuis enchem-se de lágrimas.
Os seus dedos tremem quando ela encosta a sua mão suavemente contra a janela.
Os seus olhos azuis dilatam-se com a realização.

Tenho estado a perder o meu tempo aqui, deixando-me apodrecer em depressão.
Isto não está certo.
Eu não... Não posso estar melhor...
Morta.

No seu quintal, entre as ervas altas do jardim, orgulhosamente de pé, como se estivesse a olhar para ela...
Está uma túlipa.

"Estás te apaixonar por mim agora, é?"
"Estás a falar de q-"
"..."
"..."
"Isto é capaz de te ensinar a manteres-te calada"
Ela limpa os lábios com as costas da mão.
"Achas mesmo que um beijo chega?"
Ele pestaneja, confuso.
"...Queres dizer..."
Ela apanha o significado da frase.
"Não foi isso que eu quis dizer! Idiota!"
"No entanto tu amas-me, não é?"
"..."

Ela volta-se rapidamente para a mesa de cabeceira, os seu cabelos voando com ela.
Ela não pode esquecer.
Ela não deve esquecer.
Ela não esquecerá.
Uma caixa está ao pé das tulipas murchas, um nome gravado nela.
No outro lado da caixa está outra fotografia, que tem um homem de olhos verdes, os olhos mais verdes que ela alguma vez virá nesta sua vida.

Pedro Ferreira.

Adorado marido e filho.


"Não devias estar tão lisonjeado por isso"
"Então amas mesmo"

Chuva.
Ela não podia deixar de gostar da chuva.
Mesmo que as nuvens estejam escuras e iminentes, e que o ar esteja gelado, e isso lhe dê um ar muito solitário, ela continua a gostar da chuva.
Porque é nos momentos depressivos como estes, que ela é capaz de sentir melhor o amor dele.



O nome "Pedro Ferreira" foi gentilmente cedido pela Maria.

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